quinta-feira, 28 de maio de 2009

AIQUEMERDA MEO

Primeiro fico sem internete em casa, no dia seguinte - hoje - chego atrasado na escola, depois o meu queridissimo professor de redação lê a minha (ali embaixo) para a sala toda e agora estou aqui, no curso tecnico, sem poder ouvir musica, fazendo uma tarefa noob, com um proxy de merda.

EUFICOPUTO MEO.

Espero que a noite seja melhor. u.u

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Cautério


Toda vez que passo por esta porta, sinto como se o mundo desabasse mais uma vez sobre meus ombros. Já se passaram três meses, mas não me acostumei. A sensação de derrota, vergonha, medo, fraqueza… ela sempre volta e cada vez mais forte.
— Bom dia, meu caro.
São sempre essas as palavras, que a atendente joga sobre mim enquanto tenta disfarçar seu olhar de pena. A idéia de ser alvo da piedade alheia sempre me incomodou, é estranho pensar que hoje sou prisioneiro dela. Pego o pacote de pílulas e saio, esboçando um sorriso. Ela é a única aqui que sabe o que carrego no meu sangue, ou, pelo menos, imaginar isso me deixa menos tenso.
Antes de sair, noto o pôster preso à parede. Como os milhares de outros com os quais já havia me deparado em meus ínfimos vinte e dois anos de vida, traz o desenho de uma fita vermelha, levemente enlaçada, e os dizeres óbvios: previna-se, use camisinha.
É sempre assim. Qualquer coisa relacionada à AIDS me traz de volta as lembranças daquela noite. Foi a mais estúpida da minha vida, a única que eu tenho certeza que jamais vou esquecer. Sempre fui prevenido. Nunca sai de casa sem uma camisinha no bolso, mas justo aquela noite... a única em que eu devia estar preparado, aquela pela qual eu mais esperei, desejei e pedi a todos os deuses possíveis, a toda e qualquer mitologia que louvasse o amor puro, a tudo aquilo que me sustentava interiormente… justo aquela noite, eu fiquei cego.
Ainda me lembro que ele usava uma calça que havíamos comprado juntos, dois dias antes, quando começamos a namorar. Éramos amigos há pouco tempo, e logo nos apaixonamos. Foi a primeira vez que amei genuinamente. Em verdade, foi a única vez que amei alguém, até hoje.
Sim, eu já possuía motivos suficientes para ser olhado por todas as pessoas que me cercavam como uma aberração. Eu sou gay.
Lembro de como minha mãe se desesperou quando lhe contei, dois anos antes. Ela se trancou no quarto chorando e orando ao seu deus, enquanto meu pai pegava a Bíblia para me falar palavras que também já conhecia:
— Filho, a palavra de deus nos deixa claro, que homossexualismo é uma abominação, uma heresia que o homem herdou do diabo, por ter se entregue ao pecado.
E então ele me contou a historia de Sodoma e Gomorra, antes de partir para a descrição de seu plano de cura.
— Vamos orar filho. Deus com certeza vai expulsar de você esse demônio que está tentando se apossar de sua alma. Tenhamos fé, pois ele cairá por terra!
Eu já esperava por algo assim, já que minha família sempre fora muito religiosa. Mas nunca imaginei que fosse doer tanto. Ele não me ouvia, mas eu ouvia o sofrimento dos dois. Os soluços de minha mãe ecoavam pela casa, um som doloroso e dilacerante. Cortavam-me bem lentamente. Doeu tanto, que eu mal consegui chorar. As lagrimas congelaram, eu estava congelando.
Meus pais realmente me viam como um endemoninhado, e nada que eu fizesse faria com que os dois mudassem de idéia. Eu assistia em silêncio as orações dos dois, nos meses que se seguiram, assim como era obrigado suportar aos olhares do meu pai, que criara o habito de exclamar “Ah, meu Deus!”, ao passar por mim. Eu não entendia, mas precisava suportar. Assim como eles não me entendiam, e nunca iriam tentar me entender.
— Mãe, eu não estou possuído!
— Pedro Henrique, cale-se! O Diabo quer falar por você, não se entregue meu filho!
Foi o ápice. Entre o dia que os contei e minha saída de casa, passou-se sete meses. Sete sofridos meses. Fui morar com meu irmão mais velho, que não me via como um monstro, e ficara viúvo há pouco tempo. Sua mulher morrera de câncer, aos vinte e nove anos de idade.
Nesses dias, nos quais eu lutava contra a depressão, procurava alivio nas noitadas. Não tinha amigos até então, pelos menos não íntimos, apenas colegas de fim de semana e trabalho. Em uma dessas noitadas, conheci o Paulo. Mantínhamos contato, mas nada alem disso. Ainda assim, logo eu me vi sonhando e desesperadamente apaixonado por ele.
Foi por isso que, naquela noite, eu ignorei todas as minhas regras. Ele confessou me amar também, me pediu em namoro, e eu aceitei. Dois dias depois, tivemos nossa primeira transa. Em minha ilusão de amor, esqueci que estava indo pra cama com um estranho, e me rendi. Sem camisinha.
Ora, eu sempre me prevenira, não havia porque me preocupar dessa vez. Eu confiava nele.
Confiava. Até que, pouco tempo depois, ele me ligou dizendo que precisava conversar. Contou-me a verdade. Não sabia que era soro positivo, no dia em que fizemos amor pela primeira vez, mas fez o exame, pois estava receoso quanto a uma festinha que havia ido dias antes, e da qual não se lembrava de ter usado preservativos.
Meu mundo caiu, quando ele disse que estava infectado. Não demorou muito para eu saber que também estava agora.
Depois disso, eu não o procurei mais. A decepção é a AIDS do amor. Matou o que eu sentia por ele rapidamente, assim como matou os dos meus pais por mim:
— Você merece isso! Merece, por ter se rendido ao pecado! Essa é sua cruz!
Ao meu lado, só ficou meu irmão. Cuida de mim agora. Um irmão gay, aidético e em depressão profunda. Foi isso que me tornei para ele.
Eu só não entendi ainda, porque continuo vivendo. Quando pegar o taxi que me espera ali fora, vou tentar encontrar uma resposta para isso.
Pelo menos mais uma vez.

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