quinta-feira, 29 de setembro de 2011

E é isto que eles chamam de Ânimo.

Se eu ao menos conseguisse
Pôr no teclado
A sensação sem gosto
Sem doce nem amargo


Então as coisas talvez ficassem mais belas
Por alguns segundos
Sem causar a ideia
De um eu-moribundo.


Se ao menos conseguisse
Pôr na tela o sentir e o lamento
Ou pelo menos mentir
De jogar palavras chaves ao relento.


Então haveria um você
Do outro lado escondido
Passando meus dedos em teu ouvido
Sem essa busca delirante por métrica rima.


Ah, se pelo eu pudesse
Ser menos contrário
E menos fadiga...


As coisas talvez fossem mais fáceis.


Né?

segunda-feira, 26 de setembro de 2011

Ponte


Toda vez que abrir esse caderno vou lembrar todo o dia da noite anterior ao dia em que abri esse caderno.
E vou reviver todo dia, a sensação de acordar e de morrer acordado; e do sentir e ficar calado e da cachaça.
Ai um vai dizer:
- Que diabos houve aquele dia em Ciudad del Este?
Ai um eu diferente não irá responder:
- Houve uma ponte entre o dia e a noite do dia anterior aquele dia.
E um outro, ai do lado, vai rir e perguntar:
- E que ponte de amizades foi essa que atravessou na noite daquele dia?
E de novo um velho eu esquecido responderá:
- Houve aquela sensação de estar em uma ponte em cima dessa ponte na noite daquele dia.
E ninguém entenderá nada. E os poucos que souberem daquela noite irão apenas abusar de sua idolatrada percepção imaginada e rir todo dia. E os poucos que souberem da ponte que me levou daquela noite ao outro dia, vão usar de sua falha percepção imaginária para brincar de piadas e simbologias. E aqueles outros poucos que estiveram comigo no dia após aquela noite daquele dia não vão entender nada e é isso.
E ai esse eu vai se lembrar dessa tarde em Ciudad del Este que poderia muito bem ser a ponte para o muito que viria. Vai recordar do cheiro da grama, da árvore que chamou de mana (só para poder se apoiar) e vai se lembrar do vento.

O vento que soprou na água
O vento que soprou na grama
O vento que soprou na lama
E sobrou sobre eles
E no cantar dos pássaros
No som dos carros
Das crianças correndo
E ai vai sorrir de tristeza:

- Chegou a Ponte para outro dia.


Ciudad Del Este; Paraguai
24;09;2011

META na Física


Que fazer quando não falta
Nada
E os sentidos se confundem
Suplicando uma abstração
Tão imaginária que
Fica vã?

Ou o que dizer ao espelho
Quando tudo em volta é
Só uma teia de
Desculpas esfarrapadas
Inquietas e mal desenhadas
Programadas para destruir?

Tediosa percepção de sombras.

Direi ao amor o silêncio


Darei ao amor o silêncio
E o calarei antes que posso esbravejar

Dirão de mim
“Ao covarde lamento” e nada mais.

Então estarei infeliz.
Por ter dito sim ao amor.

Um dia, talvez, o amor se canse e fuja de mim
E a voz do meu duplo também se cale.

E o amor dirá
“Ao covarde, eu perdoo” e nada mais.

Então estarei ainda mais infeliz.
Por não chorar o amor.

E um dia, talvez, você e o amor se voltem a mim
Nascerá então o sorriso.

E o silêncio dirá tudo
“Aos dois covardes, o caos e a paz”.

Então estarei feliz
Por podermos falar de nosso amor.

quinta-feira, 22 de setembro de 2011

Pedra/Ódio


Ainda há uma pedra no meio do meu caminho. 
Não se movimenta não me atrapalha, não incomoda... 
Não faz nada. 

Apenas fica lá parada, me impedindo de atravessar a rua. 

Quando fito Seus olhos e meu reflexo não percebo, 
cospe na minha cara e me faz chorar. 
Mas não incomoda – porque eu gosto da sensação.

Não sei mais se estou apaixonado por esse pedaço de nada, pela vontade de atravessar a rua ou pelo seu silêncio. 

Pela noite, quando no céu não vejo estrelas nem lua nem nada, 
me bate uma fome angustiante. 
Eu corro, mas sempre tropeço e caio e choro e nada mais. 

A percepção do erro não tenho mais, porque ainda há uma pedra no meio do caminho.

E quando pensei que tudo fosse ficar bem, 
uma outra nasceu lá adiante.

Um belo dia noturno.

Diálogos silenciosos I


Ouvi por detrás da porta:
-... mas é diferente com você.
- Como assim...?
- As coisas gostam de me incomodar. Eu às vezes ando pelo quarto, e esqueço que estou dentro dele. Porque as coisas ficam me encarando e sinto medo. As pessoas...
- Que tem elas...?
- Elas não me dão medo...
- E isso é ruim?
- Não é bom.
- Por que não, Oit...
- Elas não me fazem sentir nada... Eu amo todos vocês, e sei dentro de mim que isso não é mentira. Nós rimos e brincamos e contamos piadas e brigamos... isso me faz tão bem... mas...
- Mas o quê...?
- É um bem estar vazio... Só... só com você é diferente...
- Você está dizendo que...
- Que não estou apaixonado por você.
- Então o quê...?
- Sua companhia... perto de você eu não me sinto vazio.
- E isso é bom?
- Não é ruim.
Depois disso ouve um grito silencioso e as almas daqueles dois sumiram.

terça-feira, 20 de setembro de 2011

Hollow

Amargo te faz vazio
Mesmo que seja pecado

Ou de vazio fica cheio o amargo
Ressoando no frio.

- Putz.
- Tudo errado.

Reflexões no Submundo


E como se a sensação de vazio não bastasse, as coisas te levam a provar do mesmo veneno. Seu espelho não diz nada com nada – só te chama de hipócrita. Ele sabe que seu lado matéria é inexato e mentiroso. Sabe que aquela imagem conhecida é só uma vertigem do abismo que todos ignoram – por sua culpa. Um emaranhado de recortes tão pecaminosos quanto a América de Colombo. Tão vertiginoso quanto um verso de Borges. Tão miserável existencial quanto uma pedra barroca.

Mas não chora.

No desespero de seu quarto vazio, não há ao menos uma barata para devorar e essa nova percepção racha seu interno espelho: o ser se fragmenta, foge aquela parte quebradiça. Sentimentos não se entendem.

Mas não chora.

Apenas esboça uma máscara de cachorro vira-lata e sai latindo pelas latas de lixo metafisico que encontra no caminho escuro – o interruptor da lâmpada está queimado. Quando tromba em um ou outro ser humano – ser humano... – o melhor a fazer é simular um latido diferente. Reescrever para o externo o que não pode ser gritado pela alma.

Mas não chora.

Você prefere continuar idealizando, essa coisa inventada que preferia não conhecer. Essa coisa de quatro patas que devora a carne e vomita o espirito. Você no fundo gosta de mentir para os outros que isso não incomoda. Masoquismo inconsciente.


E os olhos ficam molhados.

Quando o outro lado passa, a sombra ao lado não é tua. É do outro. Idealizado e incompleto, como o seu.

E as lágrimas se formam.

E quando do outro lado a figura se extingue, a mascara cai e o ser quebrado se mata. Real e incompleto, como o dele.

E o olhar se cala.

Assim as coisas continuam, e nínguem nunca será feliz. É só ferida contida, carnificina sem sentido. Não há o que sentir.

E chora.

quinta-feira, 15 de setembro de 2011

Essa coisa de amor


Ela vai te corroer
Sufocar
Te fazer suplicar
E morrer

todo dia.

Ela vai te fazer olhar pro lado
ver quem ama amar o outro do outro lado
E você vai chorar

todo dia.

e na noite fria
um coitado vai bater à tua porta
Relembrando mais uma, oh idiota
Que te ama em poesia.

e toda noite

você vai se trancar para o que está em volta
vai olhar para o outro  e outro não vai olhar de volta

enquanto o terceiro tenta esquecer essa tripla agonia.

sexta-feira, 2 de setembro de 2011

Comentários

Então de fato
Nesse caso

O melhor a fazer
É desistir.

reciclagem em cacos
vento não soprado

Desistir de desistir.