segunda-feira, 26 de setembro de 2011

Ponte


Toda vez que abrir esse caderno vou lembrar todo o dia da noite anterior ao dia em que abri esse caderno.
E vou reviver todo dia, a sensação de acordar e de morrer acordado; e do sentir e ficar calado e da cachaça.
Ai um vai dizer:
- Que diabos houve aquele dia em Ciudad del Este?
Ai um eu diferente não irá responder:
- Houve uma ponte entre o dia e a noite do dia anterior aquele dia.
E um outro, ai do lado, vai rir e perguntar:
- E que ponte de amizades foi essa que atravessou na noite daquele dia?
E de novo um velho eu esquecido responderá:
- Houve aquela sensação de estar em uma ponte em cima dessa ponte na noite daquele dia.
E ninguém entenderá nada. E os poucos que souberem daquela noite irão apenas abusar de sua idolatrada percepção imaginada e rir todo dia. E os poucos que souberem da ponte que me levou daquela noite ao outro dia, vão usar de sua falha percepção imaginária para brincar de piadas e simbologias. E aqueles outros poucos que estiveram comigo no dia após aquela noite daquele dia não vão entender nada e é isso.
E ai esse eu vai se lembrar dessa tarde em Ciudad del Este que poderia muito bem ser a ponte para o muito que viria. Vai recordar do cheiro da grama, da árvore que chamou de mana (só para poder se apoiar) e vai se lembrar do vento.

O vento que soprou na água
O vento que soprou na grama
O vento que soprou na lama
E sobrou sobre eles
E no cantar dos pássaros
No som dos carros
Das crianças correndo
E ai vai sorrir de tristeza:

- Chegou a Ponte para outro dia.


Ciudad Del Este; Paraguai
24;09;2011

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