terça-feira, 20 de setembro de 2011

Reflexões no Submundo


E como se a sensação de vazio não bastasse, as coisas te levam a provar do mesmo veneno. Seu espelho não diz nada com nada – só te chama de hipócrita. Ele sabe que seu lado matéria é inexato e mentiroso. Sabe que aquela imagem conhecida é só uma vertigem do abismo que todos ignoram – por sua culpa. Um emaranhado de recortes tão pecaminosos quanto a América de Colombo. Tão vertiginoso quanto um verso de Borges. Tão miserável existencial quanto uma pedra barroca.

Mas não chora.

No desespero de seu quarto vazio, não há ao menos uma barata para devorar e essa nova percepção racha seu interno espelho: o ser se fragmenta, foge aquela parte quebradiça. Sentimentos não se entendem.

Mas não chora.

Apenas esboça uma máscara de cachorro vira-lata e sai latindo pelas latas de lixo metafisico que encontra no caminho escuro – o interruptor da lâmpada está queimado. Quando tromba em um ou outro ser humano – ser humano... – o melhor a fazer é simular um latido diferente. Reescrever para o externo o que não pode ser gritado pela alma.

Mas não chora.

Você prefere continuar idealizando, essa coisa inventada que preferia não conhecer. Essa coisa de quatro patas que devora a carne e vomita o espirito. Você no fundo gosta de mentir para os outros que isso não incomoda. Masoquismo inconsciente.


E os olhos ficam molhados.

Quando o outro lado passa, a sombra ao lado não é tua. É do outro. Idealizado e incompleto, como o seu.

E as lágrimas se formam.

E quando do outro lado a figura se extingue, a mascara cai e o ser quebrado se mata. Real e incompleto, como o dele.

E o olhar se cala.

Assim as coisas continuam, e nínguem nunca será feliz. É só ferida contida, carnificina sem sentido. Não há o que sentir.

E chora.

Nenhum comentário:

Postar um comentário