sexta-feira, 4 de novembro de 2011

Melancolia


Quando acordou naquele dia, não sabia ao certo se os pedaços de lembranças em sua mente eram realmente memória ou apenas a reminiscência tortuosa de um conjunto de sonhos. Não havia dor de cabeça, sinal de que mais uma vez alcançara a glória de beber muito e não sentir nada além da amnésia que de vez em quando aparecia. Olhou os copos espalhados pelo chão, o conjunto de garrafas empilhadas em um canto ainda escuro do quarto e tentou se lembrar de algo mais:
- Ele estava aqui – concluiu de imediato.
A ideia de dar uma festa no seu quarto havia sido apenas uma desculpa esfarrapada para não ficar sozinho. Beber com os amigos vinha sendo, nas últimas semanas uma fuga. Mas de fato, não é que sentisse a necessidade de estar perto de outras pessoas, ele as tinha o tempo todo. O que sufocava era o buraco no seu peito. Vinha crescendo ali um abismo que não se podia explicar. Uma angústia mentirosa que o fazia cada vez mais e mais querer ficar perto de...
E o telefone tocou interrompendo seus pensamentos. Em meio a roupas sujas e copos descartáveis, encontrou o aparelho e o atendeu:
- Alô – disse uma voz masculina do outro lado.
- Oi – respondeu ele, reconhecendo o outro.
- Só queria saber se você... sei lá... está bem?
- É, eu... eu...
Ele não soube responder. Como em um passe de mágica, aquele milésimo de segundo entre pergunta e resposta se converteu em uma eternidade jamais sentida. Ele não sabia o que dizer. Naquele momento não havia “Eu”, somente um punhado de frases incompletas cheias de reticências. O abismo interno que o sufocava, sem avisar, começou a o corroer de forma mais rápido. Precisava dizer algo, queria dizer algo, mas não sabia o quê.
- Eu não sei como estou – disse por fim.
- Olha, sobre ontem...
- Tudo bem, não me lembro de muito.
- Você me contou tudo aquilo, mas eu não sei se posso...
- Deixa pra lá.
- Você vai ficar bem? – preocupou-se o amigo.
- Provavelmente não por um tempo – conclui ele, desligando o telefone.
Enquanto as lágrimas dançavam por seu rosto, e os olhos ficavam vermelhos como sangue, o abismo terminava de devorar os últimos pequenos espaços no peito.  Ele caiu, em meio ao lixo de seu próprio quarto. Um dia se lembraria plenamente da noite anterior, e de todas aquelas coisas piegas e necessárias que contou a quem amava. E choraria por um para sempre indeterminado.
Quando se levantou horas depois e foi se banhar, o telefone tocou de novo. Trazendo mais combustível à sua melancolia.

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