quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

I Fell in Love with a Dead boy I



- Ele está morto – disse Henri do outro lado da linha.
- Mas... como assim? Você mesmo disse ontem que...
- Eu sei, eu sei... Os médicos também não entenderam. Ele simplesmente não acordou mais.

Tu tu tu tu tu... Desliguei o telefone e um abismo temporal se fez no meu quarto.
Hoje era seis de dezembro. Meia-noite. Cheiro de dia cinza se esgueirava pelas ruas do meu imaginário. Deitados sobre a minha cama jogavam-se textos escritos por um defunto, em meio a fotografias rasgadas, onde me esvaziava nos braços de estranhos recém-descobertos. Silêncio. Uma mão fria e delicada me tirou para dançar, enquanto o telefone era puxado das minhas pela gravidade e corria em câmera lenta rumo ao chão, revelando a intimidade entre espaço e objeto, rindo de mim com ar de romantismo satirizado: o branco do plástico com o tom cinza do fundo que o esperava para juntos estremecer, para juntos fazerem o aparelho quebrar, emitindo um grito refinado de algo que se despedaça, e se reflete em outra, a rompendo, ou o rompendo, ou me rompendo, e em questão de segundos tira da gente toda a magia do

silêncio
(                   )

a mão que me tirava pra dançar.
Cinquenta e quatro exatos dias antes – um teletransporte:
- É que eu te amo...
Houve silêncio e constrangimento.
- Não consigo mais respirar sem pensar em você...
Houve constrangimento e silêncio.
- Eu te amo de verdade...

E eu fiquei com o silêncio. E foi isso que nos acompanhou nos dias e semanas seguintes. A cada nova menção da ideia eu te amo, eu pensava menos ainda em amá-lo – riamos disso, de fato, porque dar um toque lúdico à sua desgraça facilitaria as coisas para mim e evitaria o fim de uma amizade – amada amizade. Então nos corrompemos na ideia frustrada de que ele ficaria bem – como nas noites em que eu chorava em seus ombros as dores de meu verdadeiro amor não correspondido, ou quando ele chorava encolhido dores por me encontrar em braços e bocas e corpos alheios, conhecidos ou não, tanto faz, dava na mesma.
Não sei o porquê, mas só ele naquele mundo todo não atraia minha atenção. Carma.

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