quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

Fernando


Feche os olhos
E faz de conta
Risonho em sonho
Navegando por baixo de toda conduta
Abra os olhos
Não cale o calar quente do desassossego.

Durma  e durma e nada mais...
Os olhos, aberto e fechados, vão te mostrar um pouco de paz.

terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

Heterossexualismo


Decidir-se não foi fácil, nunca é. Mas as notícias eram realmente interessantes, então por que não tentar? Se funcionasse, tinha certeza que passaria a trilhar um novo e agradável caminho...
Quero dizer, tentava acreditar que daria certo. Porque no fim das contas, vivia a segunda década do século vinte e um, o ser humano evoluiu pra caralho em vários aspectos, às vezes nem sempre tão humanos, mas tudo era confiável. E aparte, tinha ao seu lado um forte aliado: a fé. Não que a sua fosse lá grande coisa, mas muita gente cria naquilo. Era inspiração divinamente humana. Esse tipo de coisa nunca falha.
Nunca.
Então tomou um banho, pegou o carro e dirigiu até o centro da cidade, onde havia marcado o encontro, para as 15h em ponto.
No caminho, sua mente revivia seus quase trinta anos de uma vida que agora parecia vazia. Não, não que ela fosse ruim, ao contrário. Namorou, casou-se, se separou, por motivos pessoais não teve filhos, mas estavam em seus planos, e muito mais. Amar e ser amado, dizia, é a melhor coisa do mundo. Mas depois de ver aquela matéria, não podia mais se acomodar. Porque se diziam que ele estava doente, então precisava se curar.
Mas eis o fato: Ele era um homem feliz.
 Chegou ao destino exatamente as 14h24m e enquanto esperava o tempo parecia se arrastar. No horário marcado, a porta se abriu, uma voz masculina o chamou e ele entrou. Como esperado, o ambiente era bem agradável, mas não pode deixar de esconder o nervosismo:
- Deite-se aqui, por favor, disse o homem a sua frente.
- Ah, eu não posso ficar, ah é... – droga, pensou, eu to muito nervoso.
Não se pode culpar alguém por agir de forma confusa em uma situação que jamais imaginou se submeter. Talvez seja interessante dizer que quando estacionou seu carro, lá fora, e a passos curtos caminhou até a entrada do prédio, uma pequena síndrome de pânico o tomou. Era como se todos ao seu redor o olhassem e apontassem, rindo em silêncio, do fato dele ser... diferente deles.
- Não se preocupe, vai ser mais cômodo para você se ficar deitado – finalizou o outro, sorrindo angelicalmente. O rapaz sentiu-se relaxar um pouco e aceitou a proposta, mas suas pernas continuavam a tremer e o suor dançava em seu rosto.
O divã era realmente confortável:
- Doutor eu... eu... – calou-se, as mãos se apertando. Respire fundo, pensou. Talvez não tenha sido uma boa ideia, no fim das contas.
- Fique calmo, fale quando se sentir confortável para fazê-lo – orientou o psicólogo.
- Ok... – disse ele, fechando os olhos. Enquanto buscava forças dentro de si, um pequeno filme de sua vida se mostrou; lembrou-se da noite de seu primeiro beijo, muito anos atrás. O nome dela era Ellen. Aconteceu em uma noite de inverno. Ele chorou e sentiu-se suicida quando finalmente finalizou sua fala – Doutor eu quero ser feliz, digo, gay.
O médico encarou o paciente por um instante atônito. Talvez tivesse entendido errado. Sabia que estava trabalhando muito nos últimos dias e, quem sabe, sua audição tivesse o enganado. Com muita cautela ele disse
- Repita, por favor.
- É isso doutor. Eu cansei de ser tratado como lixo... e-e-eu decidi me curar. O senhor precisa me ajudar doutor!
Que pena, seus ouvidos estavam certos.
- Por favor, acalme-se e explique o que está acontecendo.
Ele não estava bem. E a essa altura do campeonato, meu caro, os dois estavam confusos, cada um a sua maneira. Tirando um pedaço rasgado de papel do bolso, o paciente disse:
- O senhor...  o senhor lê nos jornais todo dia. Todo mundo falando que... que... os heterossexuais não são... não são normais e... e... Doutor tem gente que é espancada por causa disso e... e... eu sou feliz... mas to com medo... e...
- Senhor, veja bem – interrompeu o outro – não há nada de errado em ser heterossexual.
- Não doutor, olhe – disse empurrando o pedaço de papel rasgado ao outro, a manchete dizia que, finalmente, aqueles que sofressem de heterossexualismo poderiam ter ajuda profissional para reverter seu quadro... clínico.
O doutor leu a matéria assustado. Aparentemente, a nova lei fora proposta por uma bancada religiosa extremista que condenava relações heterossexuais para outros fins que não a reprodução da espécie.
- Meu senhor – disse – não leve isso a sério. O senhor é feliz, não é?
- Sim... e-eu sou sim...
- Então é isso que importa. O senhor não está doente e nem precisa de ajuda.
- O senhor é gay, não é?
- Sim, mas...
- É fácil pra o senhor falar... Não sabe o que é não poder sair na rua de mãos dadas com a mulher que ama sem ser chamado de doente ou endemoniado.

O doutor chorou. O paciente também chorou.
Eu chorei.

Lá fora, os outros sorriam.

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Esse texto é minha resposta a Esta Matéria.

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domingo, 26 de fevereiro de 2012

sábado, 25 de fevereiro de 2012

Hljómalind

E eu soube
Que de todos os sabores
Preferiu o vermelho do sangue
O blues da tristeza
E... e... e...

Olá
Oi
Blza?
Sim e vc
Tbm.
Legal

E eu vi no futuro
Que de todas as sensações
Preferiu a palidez do vento que vai embora
E o jazz do por do sol
E a... a.. a.. a..

- Saudades de você.
- É. Eu tbm.
- Quando a gente se vê de novo?
- Eu não sei.
- Hmmm
- Tenho que ir.

E eu percebi
Que de todas as metáforas
Preferiu as sem sentido
As dores em comprimido
E... o.. o

Tchau então.
Tchau.

.... e o abandono.



Svo Hljótt

Naturalmente, não é assim que as coisas acontecem. Mas veja bem: você quer ser enganado.
Por você mesmo.
E vai ser sempre assim porque, no fundo, o que é visto nos outros é automaticamente transformado em utopia:
- Eu sou feio.
- Amar é desnecessário.
- Eu não preciso.
- Eu não te quero.
- Eu não nego.
- Eu sinto.

Eu tô afundando sozinho. E sei muito bem que, quando me faltar o ar e o desespero abraçar, vai ter um punhado de algas demoníacas prendendo meus pés, subindo em minhas pernas e me puxando para baixo.

P
A
R
A


F
U
N
D
O
        M
                   A
                             I
                                    S
                                     P
                                      R
                                      O
                                       F
                                             U
                                                   N
                                                          D
                                                                  O

E não há nada que eu possa fazer. Porque eu
- Me sinto fraco
- Me sinto feio
- Me sinto um pedaço de papel rasgado

E no papel não coube, o que na vida não cabia.
Na poesia caberia.

Mas não faz diferença. Orange juice. É, eu queria que fosse suco de laranja! Para beber e sentir prazer.
Suco... de laranja.


Que droga. Sentimentos são uma droga.

Mas não sentir seria pior.

É.


Toquei o fundo.



quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

Sobre insetos, lâmpadas e homens.


Sentados na varanda, sobre o olhar de um luar cinzenta e obsoleto, eles conversavam:
— Mas no fim, estes insetos — disse o primeiro, apontando para um pequeno grupo de mosquitos que voavam em volta da lâmpada que os iluminava —, são a maior representação da cobiça que existe.
— Como? — disse o segundo — O que tem de tão especial em insetos? Eles não me parecem tão significantes assim.
— Olhe para a lâmpada, ou melhor, olhe para o centro dela, o pequeno fio luminoso.
O outro olhou.
— O que você vê?
— Nada além de luz.
Silêncio. O Primeiro, em um movimento leve, levantou-se, ficando em pé, sobre a cadeira. Sem saber o porquê daquilo, e ao mesmo tempo achando graça no gesto de seu parceiro filosofo, o Segundo o acompanhou. Ambos ficaram quietos, observando a ampola de vidro e seus insetos. O espetáculo bizarro, daquelas pequenas criaturas tentando, incansavelmente, penetrar a transparente barreira que os separava da fonte de calor era banal, mas fazia o Primeiro se emocionar de uma forma estranha. Seus olhos brilhavam, e não era apenas o brilho da luz refletindo neles: era uma espécie de compaixão, um dó desvairado por aqueles ignorantes seres.
Impaciente, o outro demonstrou seu incomodo:
— Já se passou um tempinho, eu não sei o que estamos fazendo, e isso tá me deixando desconfortável.
— Ah, desculpe. Você não vê nada alem de luz, não é? — disse o outro, coçando a cabeça, como alguém que acaba de acordar de um sonho.
— Além de insetos, sim, só a lâmpada e sua luz. E essa conversa já está ficando redundante.
— É, verdade, talvez piore... Eu vou te explicar.
Sentaram-se. Uma brisa suave os tomou e, olhando para o chão, viram alguns insetos mortos.
— O que estes insetos mais querem é tocar aquele fio de luz, que emana do centro da lâmpada. Aquela ampola, ela é, aparentemente, o único obstáculo entre a Fonte e os insetos, e, em sua ignorância, eles não enxergam qual o erro disso tudo.
— O fato de eles serem ínfimos demais para superarem ela e chegar à Fonte?
— Isso mesmo. Nunca irão chegar a Fonte. A ampola que a protege não pode ser quebrada.
— Mas eles têm a percepção de que existe uma barreira, algo que os impeça de chegar até lá. Por que, então, continuam tentando?
— É o calor. A energia que o centro da lâmpada emana é algo inexplicavelmente agradável para eles. Uma vez que percebem isso, pode observar — disse o Primeiro, olhando para a lâmpada —, não param de tentar alcançar a origem dessa energia.
— É… mas, veja — disse o segundo, apontando para os pequenos corpos no chão — eles morrem com essa busca.
— Eles morrem porque não percebem o obvio.
— Como?
— Já pegou em uma lâmpada, depois de algumas horas acesa? Ela fica insuportavelmente quente. Imagine: se em mim, um ser superior a esses insetos, essa lâmpada causaria dor, se eu tocasse nela, o que aconteceria com eles?
— Entendi: eles não percebem que a ampola é mortífera, porque estão cegos em sua busca pela energia primordial. Como são meros insetos, chegará o momento em que seus corpos não resistirão mais, então eles morrerão. A Energia que eles tanto buscam, no fim, é a própria morte.
— Não, ela não é a morte. A vontade de querer gozar plenamente dela, em sua essência sim. É isso que os mata.
— Você me deixou confuso.
— Essa ampola é intransponível, por dois motivos óbvios: ela não pode ser quebrada por eles, além de estar sendo aquecida pela origem da Luz, o que a torna mortífera. É essa combinação que os mata. Eles não percebem que a Fonte não pode ser tocada, que não podem ter o todo, e por isso morrem. Por serem, como eu já disse, cegos.
Mais uma pausa silenciosa. Os dois estavam pensando, conversando consigo. Grilos cantavam, e uma nuvem escondeu a lua. Então, o Segundo falou:
— Já sei por que, então, eles são a imagem da cobiça.
— Não fica claro, agora?
Leves risos.
— Eles poderiam viver muito bem, com a pequena fração de calor que podem ter. Pra quê tocar a luz, se podem gozar dela aqui fora? Eu só consigo pensar em uma resposta: tocar a fonte é o apogeu da vida desses insetos; ali tudo se completa, tudo faz sentido. Respostas os encontram, mistérios se solucionam, novidades os domam. A vida se completa, literalmente, enquanto o equilíbrio entre todas as coisas é formado. É como ganhar uma vida nova, um corpo perfeito, e alma que suporta o calor. O ápice do darwinismo — concluiu o Primeiro.
— Sim, e é uma pena que algo tão banal, como uma cegueira voluntaria, os impeça.
— É uma pena saber que, lá no fundo, eu e você somos exatamente iguais a esses insetos.
— Realmente. Mas há esperança?
— Sim, ou não. Eu não vou viver o suficiente para ver a conclusão desse mistério.
Silêncio.

Henrique, quando Golias começou a aparecer
2009





sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

However far away... Always.

É demasiadamente complicado. Demais.
Não é como se tivesse acordado e resolvido chutar tudo pro ar. O processo foi bem lento na verdade, e sei que não terminou. 

Demasiadamente complicado.

Só sei que sinto falta, desde já. Quando acordo com vontade de tomar gim e corro para geladeira buscando uma certa fruta vermelha, é porque a merda tá grande. Em quase dois meses, foi a primeira e única vez. E trouxe uma chuva de certezas.

Números e mais números.

Tenho medo de dormir, nesses últimos dias. Porque eu não sonho mais, revivo dias passados. O da quase morte, o almoço com curry, as festas nos quartos, o verme na comida, a janela, a beira da piscina... O dia e noite de Melancholia, deitados na cama, em meio às trevas.

Tudo foi o melhor de tudo. E isso é o pior de tudo.

O tempo passa rápido só quando você está feliz. Do contrário ele se arrasta.

É foda.

E ai, minha loira, a gente samba. Samba sem querer dançar. Que vai ser desse rosto, sem um ano de seus tapas verbais na minha cara?

Olha o cheiro da grama e da terra me pegando de novo... Olha a menina cantando no violão, aqui na recepção. Passou umas semanas e nos apaixonamos fraternalmente. Eita, tem tanta gente nesse quarto que fica até difícil falar de todos - e ai eu ganho um abraço de urso, que faz minhas costelas estalarem. Alegria e felicidade.

Wow, quanta coisa. Pareceu uma vida inteira e nem foi tanto tempo assim. Mas foi sim...

O tempo passa rápido quando você está feliz. Agora ele vai se arrastar...

Mas eu vou seguir amando vocês. Vou seguir amando você.
Tem cheiro de gim e morango no ar.

However far away. Always.









N.Y Hotel (revisited) N.Y Hotel (revisited)



The last hope you got
Is the last thing that you have
So go on
Take them down
Don't let them take that
This last hope of yours
Is the last thing that will last