terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

Heterossexualismo


Decidir-se não foi fácil, nunca é. Mas as notícias eram realmente interessantes, então por que não tentar? Se funcionasse, tinha certeza que passaria a trilhar um novo e agradável caminho...
Quero dizer, tentava acreditar que daria certo. Porque no fim das contas, vivia a segunda década do século vinte e um, o ser humano evoluiu pra caralho em vários aspectos, às vezes nem sempre tão humanos, mas tudo era confiável. E aparte, tinha ao seu lado um forte aliado: a fé. Não que a sua fosse lá grande coisa, mas muita gente cria naquilo. Era inspiração divinamente humana. Esse tipo de coisa nunca falha.
Nunca.
Então tomou um banho, pegou o carro e dirigiu até o centro da cidade, onde havia marcado o encontro, para as 15h em ponto.
No caminho, sua mente revivia seus quase trinta anos de uma vida que agora parecia vazia. Não, não que ela fosse ruim, ao contrário. Namorou, casou-se, se separou, por motivos pessoais não teve filhos, mas estavam em seus planos, e muito mais. Amar e ser amado, dizia, é a melhor coisa do mundo. Mas depois de ver aquela matéria, não podia mais se acomodar. Porque se diziam que ele estava doente, então precisava se curar.
Mas eis o fato: Ele era um homem feliz.
 Chegou ao destino exatamente as 14h24m e enquanto esperava o tempo parecia se arrastar. No horário marcado, a porta se abriu, uma voz masculina o chamou e ele entrou. Como esperado, o ambiente era bem agradável, mas não pode deixar de esconder o nervosismo:
- Deite-se aqui, por favor, disse o homem a sua frente.
- Ah, eu não posso ficar, ah é... – droga, pensou, eu to muito nervoso.
Não se pode culpar alguém por agir de forma confusa em uma situação que jamais imaginou se submeter. Talvez seja interessante dizer que quando estacionou seu carro, lá fora, e a passos curtos caminhou até a entrada do prédio, uma pequena síndrome de pânico o tomou. Era como se todos ao seu redor o olhassem e apontassem, rindo em silêncio, do fato dele ser... diferente deles.
- Não se preocupe, vai ser mais cômodo para você se ficar deitado – finalizou o outro, sorrindo angelicalmente. O rapaz sentiu-se relaxar um pouco e aceitou a proposta, mas suas pernas continuavam a tremer e o suor dançava em seu rosto.
O divã era realmente confortável:
- Doutor eu... eu... – calou-se, as mãos se apertando. Respire fundo, pensou. Talvez não tenha sido uma boa ideia, no fim das contas.
- Fique calmo, fale quando se sentir confortável para fazê-lo – orientou o psicólogo.
- Ok... – disse ele, fechando os olhos. Enquanto buscava forças dentro de si, um pequeno filme de sua vida se mostrou; lembrou-se da noite de seu primeiro beijo, muito anos atrás. O nome dela era Ellen. Aconteceu em uma noite de inverno. Ele chorou e sentiu-se suicida quando finalmente finalizou sua fala – Doutor eu quero ser feliz, digo, gay.
O médico encarou o paciente por um instante atônito. Talvez tivesse entendido errado. Sabia que estava trabalhando muito nos últimos dias e, quem sabe, sua audição tivesse o enganado. Com muita cautela ele disse
- Repita, por favor.
- É isso doutor. Eu cansei de ser tratado como lixo... e-e-eu decidi me curar. O senhor precisa me ajudar doutor!
Que pena, seus ouvidos estavam certos.
- Por favor, acalme-se e explique o que está acontecendo.
Ele não estava bem. E a essa altura do campeonato, meu caro, os dois estavam confusos, cada um a sua maneira. Tirando um pedaço rasgado de papel do bolso, o paciente disse:
- O senhor...  o senhor lê nos jornais todo dia. Todo mundo falando que... que... os heterossexuais não são... não são normais e... e... Doutor tem gente que é espancada por causa disso e... e... eu sou feliz... mas to com medo... e...
- Senhor, veja bem – interrompeu o outro – não há nada de errado em ser heterossexual.
- Não doutor, olhe – disse empurrando o pedaço de papel rasgado ao outro, a manchete dizia que, finalmente, aqueles que sofressem de heterossexualismo poderiam ter ajuda profissional para reverter seu quadro... clínico.
O doutor leu a matéria assustado. Aparentemente, a nova lei fora proposta por uma bancada religiosa extremista que condenava relações heterossexuais para outros fins que não a reprodução da espécie.
- Meu senhor – disse – não leve isso a sério. O senhor é feliz, não é?
- Sim... e-eu sou sim...
- Então é isso que importa. O senhor não está doente e nem precisa de ajuda.
- O senhor é gay, não é?
- Sim, mas...
- É fácil pra o senhor falar... Não sabe o que é não poder sair na rua de mãos dadas com a mulher que ama sem ser chamado de doente ou endemoniado.

O doutor chorou. O paciente também chorou.
Eu chorei.

Lá fora, os outros sorriam.

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Esse texto é minha resposta a Esta Matéria.

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