quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

Sobre insetos, lâmpadas e homens.


Sentados na varanda, sobre o olhar de um luar cinzenta e obsoleto, eles conversavam:
— Mas no fim, estes insetos — disse o primeiro, apontando para um pequeno grupo de mosquitos que voavam em volta da lâmpada que os iluminava —, são a maior representação da cobiça que existe.
— Como? — disse o segundo — O que tem de tão especial em insetos? Eles não me parecem tão significantes assim.
— Olhe para a lâmpada, ou melhor, olhe para o centro dela, o pequeno fio luminoso.
O outro olhou.
— O que você vê?
— Nada além de luz.
Silêncio. O Primeiro, em um movimento leve, levantou-se, ficando em pé, sobre a cadeira. Sem saber o porquê daquilo, e ao mesmo tempo achando graça no gesto de seu parceiro filosofo, o Segundo o acompanhou. Ambos ficaram quietos, observando a ampola de vidro e seus insetos. O espetáculo bizarro, daquelas pequenas criaturas tentando, incansavelmente, penetrar a transparente barreira que os separava da fonte de calor era banal, mas fazia o Primeiro se emocionar de uma forma estranha. Seus olhos brilhavam, e não era apenas o brilho da luz refletindo neles: era uma espécie de compaixão, um dó desvairado por aqueles ignorantes seres.
Impaciente, o outro demonstrou seu incomodo:
— Já se passou um tempinho, eu não sei o que estamos fazendo, e isso tá me deixando desconfortável.
— Ah, desculpe. Você não vê nada alem de luz, não é? — disse o outro, coçando a cabeça, como alguém que acaba de acordar de um sonho.
— Além de insetos, sim, só a lâmpada e sua luz. E essa conversa já está ficando redundante.
— É, verdade, talvez piore... Eu vou te explicar.
Sentaram-se. Uma brisa suave os tomou e, olhando para o chão, viram alguns insetos mortos.
— O que estes insetos mais querem é tocar aquele fio de luz, que emana do centro da lâmpada. Aquela ampola, ela é, aparentemente, o único obstáculo entre a Fonte e os insetos, e, em sua ignorância, eles não enxergam qual o erro disso tudo.
— O fato de eles serem ínfimos demais para superarem ela e chegar à Fonte?
— Isso mesmo. Nunca irão chegar a Fonte. A ampola que a protege não pode ser quebrada.
— Mas eles têm a percepção de que existe uma barreira, algo que os impeça de chegar até lá. Por que, então, continuam tentando?
— É o calor. A energia que o centro da lâmpada emana é algo inexplicavelmente agradável para eles. Uma vez que percebem isso, pode observar — disse o Primeiro, olhando para a lâmpada —, não param de tentar alcançar a origem dessa energia.
— É… mas, veja — disse o segundo, apontando para os pequenos corpos no chão — eles morrem com essa busca.
— Eles morrem porque não percebem o obvio.
— Como?
— Já pegou em uma lâmpada, depois de algumas horas acesa? Ela fica insuportavelmente quente. Imagine: se em mim, um ser superior a esses insetos, essa lâmpada causaria dor, se eu tocasse nela, o que aconteceria com eles?
— Entendi: eles não percebem que a ampola é mortífera, porque estão cegos em sua busca pela energia primordial. Como são meros insetos, chegará o momento em que seus corpos não resistirão mais, então eles morrerão. A Energia que eles tanto buscam, no fim, é a própria morte.
— Não, ela não é a morte. A vontade de querer gozar plenamente dela, em sua essência sim. É isso que os mata.
— Você me deixou confuso.
— Essa ampola é intransponível, por dois motivos óbvios: ela não pode ser quebrada por eles, além de estar sendo aquecida pela origem da Luz, o que a torna mortífera. É essa combinação que os mata. Eles não percebem que a Fonte não pode ser tocada, que não podem ter o todo, e por isso morrem. Por serem, como eu já disse, cegos.
Mais uma pausa silenciosa. Os dois estavam pensando, conversando consigo. Grilos cantavam, e uma nuvem escondeu a lua. Então, o Segundo falou:
— Já sei por que, então, eles são a imagem da cobiça.
— Não fica claro, agora?
Leves risos.
— Eles poderiam viver muito bem, com a pequena fração de calor que podem ter. Pra quê tocar a luz, se podem gozar dela aqui fora? Eu só consigo pensar em uma resposta: tocar a fonte é o apogeu da vida desses insetos; ali tudo se completa, tudo faz sentido. Respostas os encontram, mistérios se solucionam, novidades os domam. A vida se completa, literalmente, enquanto o equilíbrio entre todas as coisas é formado. É como ganhar uma vida nova, um corpo perfeito, e alma que suporta o calor. O ápice do darwinismo — concluiu o Primeiro.
— Sim, e é uma pena que algo tão banal, como uma cegueira voluntaria, os impeça.
— É uma pena saber que, lá no fundo, eu e você somos exatamente iguais a esses insetos.
— Realmente. Mas há esperança?
— Sim, ou não. Eu não vou viver o suficiente para ver a conclusão desse mistério.
Silêncio.

Henrique, quando Golias começou a aparecer
2009





Nenhum comentário:

Postar um comentário