Sentados na varanda, sobre o olhar de um luar cinzenta e
obsoleto, eles conversavam:
— Mas no fim, estes insetos — disse o primeiro, apontando
para um pequeno grupo de mosquitos que voavam em volta da lâmpada que os
iluminava —, são a maior representação da cobiça que existe.
— Como? — disse o segundo — O que tem de tão especial em
insetos? Eles não me parecem tão significantes assim.
— Olhe para a lâmpada, ou melhor, olhe para o centro dela, o
pequeno fio luminoso.
O outro olhou.
— O que você vê?
— Nada além de luz.
Silêncio. O Primeiro, em um movimento leve, levantou-se,
ficando em pé, sobre a cadeira. Sem saber o porquê daquilo, e ao mesmo tempo
achando graça no gesto de seu parceiro filosofo, o Segundo o acompanhou. Ambos
ficaram quietos, observando a ampola de vidro e seus insetos. O espetáculo
bizarro, daquelas pequenas criaturas tentando, incansavelmente, penetrar a
transparente barreira que os separava da fonte de calor era banal, mas fazia o
Primeiro se emocionar de uma forma estranha. Seus olhos brilhavam, e não era
apenas o brilho da luz refletindo neles: era uma espécie de compaixão, um dó
desvairado por aqueles ignorantes seres.
Impaciente, o outro demonstrou seu incomodo:
— Já se passou um tempinho, eu não sei o que estamos
fazendo, e isso tá me deixando desconfortável.
— Ah, desculpe. Você não vê nada alem de luz, não é? — disse
o outro, coçando a cabeça, como alguém que acaba de acordar de um sonho.
— Além de insetos, sim, só a lâmpada e sua luz. E essa
conversa já está ficando redundante.
— É, verdade, talvez piore... Eu vou te explicar.
Sentaram-se. Uma brisa suave os tomou e, olhando para o
chão, viram alguns insetos mortos.
— O que estes insetos mais querem é tocar aquele fio de luz,
que emana do centro da lâmpada. Aquela ampola, ela é, aparentemente, o único
obstáculo entre a Fonte e os insetos, e, em sua ignorância, eles não enxergam
qual o erro disso tudo.
— O fato de eles serem ínfimos demais para superarem ela e
chegar à Fonte?
— Isso mesmo. Nunca irão chegar a Fonte. A ampola que a protege
não pode ser quebrada.
— Mas eles têm a percepção de que existe uma barreira, algo
que os impeça de chegar até lá. Por que, então, continuam tentando?
— É o calor. A energia que o centro da lâmpada emana é algo
inexplicavelmente agradável para eles. Uma vez que percebem isso, pode observar
— disse o Primeiro, olhando para a lâmpada —, não param de tentar alcançar a
origem dessa energia.
— É… mas, veja — disse o segundo, apontando para os pequenos
corpos no chão — eles morrem com essa busca.
— Eles morrem porque não percebem o obvio.
— Como?
— Já pegou em uma lâmpada, depois de algumas horas acesa?
Ela fica insuportavelmente quente. Imagine: se em mim, um ser superior a esses
insetos, essa lâmpada causaria dor, se eu tocasse nela, o que aconteceria com
eles?
— Entendi: eles não percebem que a ampola é mortífera,
porque estão cegos em sua busca pela energia primordial. Como são meros
insetos, chegará o momento em que seus corpos não resistirão mais, então eles
morrerão. A Energia que eles tanto buscam, no fim, é a própria morte.
— Não, ela não é a morte. A vontade de querer gozar
plenamente dela, em sua essência sim. É isso que os mata.
— Você me deixou confuso.
— Essa ampola é intransponível, por dois motivos óbvios: ela
não pode ser quebrada por eles, além de estar sendo aquecida pela origem da
Luz, o que a torna mortífera. É essa combinação que os mata. Eles não percebem
que a Fonte não pode ser tocada, que não podem ter o todo, e por isso morrem.
Por serem, como eu já disse, cegos.
Mais uma pausa silenciosa. Os dois estavam pensando,
conversando consigo. Grilos cantavam, e uma nuvem escondeu a lua. Então, o
Segundo falou:
— Já sei por que, então, eles são a imagem da cobiça.
— Não fica claro, agora?
Leves risos.
— Eles poderiam viver muito bem, com a pequena fração de
calor que podem ter. Pra quê tocar a luz, se podem gozar dela aqui fora? Eu só
consigo pensar em uma resposta: tocar a fonte é o apogeu da vida desses
insetos; ali tudo se completa, tudo faz sentido. Respostas os encontram,
mistérios se solucionam, novidades os domam. A vida se completa, literalmente,
enquanto o equilíbrio entre todas as coisas é formado. É como ganhar uma vida
nova, um corpo perfeito, e alma que suporta o calor. O ápice do darwinismo —
concluiu o Primeiro.
— Sim, e é uma pena que algo tão banal, como uma cegueira
voluntaria, os impeça.
— É uma pena saber que, lá no fundo, eu e você somos
exatamente iguais a esses insetos.
— Realmente. Mas há esperança?
— Sim, ou não. Eu não vou viver o suficiente para ver a
conclusão desse mistério.
Silêncio.
Henrique, quando Golias começou a aparecer
2009
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