quinta-feira, 29 de março de 2012

O lençol, o cobertor, o agasalho ou O Sol


E me questiono diariamente o que é essa coisa de amar. Porque existe um acordo social aparentemente imutável que prega apenas um fato indiscutível: um jovem não sabe o que é. Provavelmente está aí a causa primeira de sentimentos não justificados. Eu por exemplo, já andei por ai dizendo que amei certa vez e ainda nem cheguei aos vinte e um anos – tô ali na porta, mas não a atravessei.
É preciso questionar a veracidade desses dogmas, porque é complicado simplesmente afirmar algo assim e ponto. Confesso minhas paixonites, sem saber ao certo o que elas são, mas gosto de especular. Houve sim aqueles garotos, e até mesmo certa menina, que tomou minha atenção e vida por um determinado e curto período no tempo. Naqueles dias em que o olhar deixa o eu em  alfa, e um leve toque leva a ômega. Mas nada insuportável – é só uma coisa quente no peito, como um lençol em dia de chuva. Passa rápido, e é confortante enquanto existe, mas nada além disso, nada de tristeza, nada de alegria. Alguns dos meus primeiros versos nasceram dessas primeiras e simplórias percepções sobre algo que jamais entenderia. Não importava nem mesmo as problemáticas de uma sexualidade adormecida.
Nada fazia muito barulho, era só um lençol em dia de chuva.
E então acontece de, um dia, a sensação ficar um pouco mais forte e algo arranhar seu estômago. Deve ser o que chamam de paixão. Foi de uma dessas silenciosas e nunca comentadas que minhas primeiras experiências corpóreas se concretizaram. As coisas fluem naturalmente em ambos e o vento sopra um pouco mais forte.  O lençol voa, um cobertor é preciso, e se aquecem. Mas nada além disso – há um algo físico que inibe e nunca se resolve. Mas nesse caso havia sim a problemática de sexualidades mal resolvidas e tudo e ponto. De qualquer forma, é natural, como se tudo conspirasse e empurrasse para a repetição: de novo e de novo e de novo, os corpos se desejam, a coisa no estômago arranha cada vez mais forte e, um dia, como se nada importasse, ela vai embora, deixando os lados livres.
É que parou de chover, o cobertor pode ser ignorado.
São coisas que se repetem, sem te incomodar: a chuva, o lençol, o cobertor. E assim a vida caminha sem nenhuma novidade – charlatã.
Mas um dia se decide sair de casa e o vento sopra muito mais forte. E não há onde se esconder. Sua bermuda, seu chinelo e a camiseta não bastam, não aquecem. Um estranho às vezes bem conhecido aparece e te oferece um agasalho, e você não percebe que não é um empréstimo, mas definitivo. Recusa-se a principio, mas a necessidade é maior e, quando se nota, você está aquecido, o vento para e ele foi embora. Nunca mais irá vê-lo, mas o agasalho basta. Aquilo que é preciso para se aquecer está ali, o doador é só uma ideia platônica de salvador. O agasalho te basta. Até que, no meio-dia, a tempestade se forma, o vento grita, a agua te molha e o frio te estupra. Clama-se pelo doador, porque o agasalho agora também doa a dor, mas ninguém ouve...
E no frio você chora, adoece, quase morre, mas sobrevive até que a tempestade passe e o tempo nublado perdure - porque não se sabe, até então, o que é a luz do sol, é tudo nublado.
Sempre me dei mal com dias claros. O cinza me parece mais coeso com minhas sensações. É por isso que o inverno é meu amante, e o outono meu amigo. Tenho medo do verão. Abomino a primavera. Porque no verão o sol se mostra sempre forte e impetuoso, um calor sem igual. Porque na primavera as flores cantam e andam de mãos dadas, enquanto estou com as minhas no bolso.
O céu azul me lembra da minha melancolia. Lembra-me do lençol e do cobertor. Faz-me sentir o frio daquela tempestade e tremer. Quando fico sozinho no meu quarto, em dias de verão, ligo o ar-condicionado o ventilador ou o que seja só para sentir o frio de novo. Quero o inverno sobre mim, porque ele é cinza. E o cinza das nuvens esconde o sol, que se teme.
Mas um dia entra em seu quarto, e o convida a sair. Deixa-se levar. Seguram-se as mãos e ele deitará em seu peito enquanto olham a noite nua. Nunca houve tanto calor, nunca houve um aperto tão forte.
Eu chorei.
E quando os olhos abriram, pela primeira vez, o céu cinza do inverno sumiu e vi o azul do verão. O Dia sem rosto no meu peito levantou-se, soltou minha mão e foi embora. Subiu... subiu... subiu... e disse adeus. Foi então que entendi o porque de tanto calor e tanta força: ele era o Sol, todo o calor vinha dele. Os lençóis, os cobertores e o agasalho juntos jamais seriam tão quentes quanto sua presença, lá em cima, olhando para mim de olhos fechados, sem me tocar.
E eu chorei, porque no fim daquele dia percebi que era algum tipo de lua. Condenado ao outro lado, a noite escura. Longe do Sol mas sentindo um pouco de seu brilho.
Talvez isso seja amor, mas eu não sei. Jovens não sabem o que é amar e velhos também não. Só preciso encontrar um motivo para apagar a luz, fechar os olhos.
Ignorar seu brilho, Sol.




Nenhum comentário:

Postar um comentário