quinta-feira, 26 de abril de 2012

Canção à Segunda alma



E eu me desdobrei disperso
Procurando ritmos em silêncios escuros
Tudo mudo,
Mundo in verso.

Quantos poemas desnecessários
E romantices exagerados criei,
Para que em um momento me achasse enamorado
Dessa outra parte
Que ai dentro depositei.

Desmembrando-se aos poucos
Bebendo do choro como quem bebe
Água ácida assim
Da chuva.

Andando de madrugada, conjecturando
Uma manhã que não ouvirá
Porque o peso da segunda alma
Está longe
Tão longe
Ao meu lado
Perto,
Do lado de lá.

E o desencontro matinal com  o espelho...,
O reflexo que não condiz e tanto faz

É agora canção sem música
Grito sem silêncio.

É  só a outra parte da laranja
Cambaleando
Se contorcendo.

É a outra metade
Que chora
E sofre
E sorri.

Sempre sozinha,
Assim,
Só minha,
No relento.

Para negar que te ama.
Para dizer que não estou aqui.
Para esquecer uma meia dúzia de fatos,
teu sorriso falso
que não nota o afago
E nem ao menos finge
A mim.

Só ideia solta sem ritmo sem nota e sem vírgula assim.

quarta-feira, 25 de abril de 2012

Golias quer falar

e eu me ponho louco
pois te sou espeço
como um arco partido e solto
flutuando em uni verso
e de encontro a desencontro
se distorce, a forma no espelho
eu deslizo
c
a
i
o e ponto.
concretizo o desespero

e de mentira
é nas verdades
que de mitomania brinco e andamos
eu falo sem sentindo
teus dedos meu piano

e a melodia é disforme
e eeu me perko açsim
e usentidus si descolamsasas mboi msass
poesia infiasta9sasa
ameop me mim


Golias, a Henrique Santana Cordeiro

terça-feira, 24 de abril de 2012

Ave verum corpus; salve o verdadeiro corpo.


- E o que você queria?
- Eu queria ser mais fraco, disse ele antes de virar as costas e sair caminhando.
Não havia mais nenhum ressentimento em seu olhar, a confissão fora sincera. Estava lutando há muito contra algo que não podia sequer entender e a simples ideia de combate exigia uma força de naturezas tão desconhecidas quanto a sombra que enfrentava. Ainda agora, quando penso no primeiro contato que tive com aquilo, estranho e desconhecido, pois por mais que tentasse do seu eu nada captei, lembro apenas da chuva e dos raios e do vento e do sangue em suas mãos. Sangue este que só eu vi e a coisa talvez jamais tivesse tocado.
Foi em uma noite de outono, como esta, em que o frio começa a se mostrar e o céu da cidade apresenta tumores de nuvens carregadas, que logo se espalharão por toda a imensidão infinita, transformando a alegria azul em melancolia cinza. Cinza onde me desdobro e me encontro e é o fim.
Pensava nisso quando o céu sobre minha cabeça se fechava para o seu próprio mundo e de longe me olhava. Caminhei em passos lentos, algo havia acontecido, mas escapara à minha memória – a mente me bloqueava e nos protegia -, mas esse algo era necessário saber. O vento cortou meu rosto quando, de súbito, um cachorro latiu do outro lado me encarando. Eu nada fiz. Eu nada queria. Saí andando e ignorei o sinistro negro de olhos vermelhos que sorriu a me ver.
Quarenta e dois passos depois, o corpo sucumbiu e caí de joelhos. As mãos percorriam minha cabeça e puxavam cada misero fio de cabelo por motivos que não compreendia. Sabia apenas que me odiava, e foi me odiando que fitei o céu negro, mas cinza, que me fitou de volta e chorou comigo; e como se cada gota de chuva ganhasse vida, minhas lágrimas caiam mortas pelo rosto. Abri a boca e bebi daquilo tudo enquanto meu silêncio clamava por misericórdia. Ave verum corpus. Mas nem a fé me respondeu.
O vento de antes gritou mais forte, e minha pele foi dilacerada mais uma vez, e duas, e três. Minhas unhas cediam à minha loucura e penetravam-me a carne, exigindo sangue, crucificando-me por sentir. Ave verum corpus, pois o espírito ali morria... E então meus olhos se abriram e de chuva a tempestade, tudo negro se tornou.
Revi teu rosto, luz do Sol, e meu desespero desenfreou-se. Porque não importava saber que não devia me depositar, uma vez que já o havia feito e de exorcismo nada sei. Lutei contra e clamei a favor, mas o sentimento sempre pareceu vil. E com o passar dos dias, e com passar dos meses, e com a extensão das horas e minutos, te vi indo para longe... como se nada mais importasse.
Ave verum corpus, porque a ti não posso tocar.
Ave verum corpus, porque nem amor e nem ódio poderemos compartir.
Ave verum corpus, porque não e porque sim.
E enquanto rolava ao chão, o sinistro de antes se achegou e lambeu meu rosto vira-lata. Seus olhos vermelhos choraram sangue sobre mim e gritei, ME MORDE!, mas ninguém me ouviu, nem ele que estava ali, me lambendo. As unhas se acalmavam e a pele gemia; a água refletida em mim, e caída dos céus, adormecia. De longe vi a figura do outro se aproximar, cambaleante e sem sentindo, como um bêbado enamorado pela madrugada fria. Beijou minhas mãos e me assustei com o sangue que sumia delas para irem às suas, mas nada importou... Ele era um espelho, um fantasma. O outro era eu. Com suas mãos banhadas em carmesim e cheirando a carne pecaminosa.
Eu sorri em desespero, e então só ri.
- O que aconteceu aconteceu e é isso.
- Não era pra ser assim...
- Palavras erradas, e o inferno se criou.
- Preciso de mais força, não vou abrir mão do Sol.
- Você é trevas, a luz do outro te destrói e abomina.
- Então eu prefiro morrer.
- Não a mim.
- E o que você queria?
- Eu queria ser mais fraco, disse ele antes de virar as costas e atravessar o silêncio. O cachorro sinistro e seu olhar vermelho sumiram na neblina que se formava, escondendo minha visão. Olhei minhas mãos e elas estavam limpas, a culpa do sangue parecia ter ido embora e voltei a chorar.
E os dias passaram sem graça... até o fim.


Golias, em Henrique Santana Cordeiro



sexta-feira, 20 de abril de 2012

Pensamentos soltos sobre Foz do Iguaçu: eu não surpreendo nem o espaço me assusta.


Cotidiano clichê em dois atos: o de quem não percebe e o de quem percebe demais. Eu ouvi essas duas histórias por ai, mas nem devem ser de todo certeza. É que a mente às vezes me engana e crio vozes que se misturam como água e fogo, então é vapor. E vapor não se pega, mas queima. E eu não sei o que isso quer dizer. O primeiro menino pode ser menina, e o seguinte é menino mesmo. Todo menino fica nu no espelho de vez em quando. Não vou dizer que sou eu, porque não sou. Mas eu poderia ter me desdobrado nesses dois, então deixa pra lá. Você tá achando essa introdução um saco, mas isso aqui nem é introdução: eu só tô procurando uma forma de ligar essas histórias que nasceram juntas e insistem em dizer que não são gêmeas só porque vieram ao mundo em dias diferentes. É tudo ilusão, me disse Clèment Rosset, mas a verdade é que esses personagens são como o pobre Jacobina, do Espelho do Machado de Assis, mas que não encontram sua segunda alma. É foda, mas é isso. E não me encha saco dizendo que cito autores para me justificar porque todo mundo um dia vai fazer isso. É foda.
Chega de enrolação, vamos ao primeiro caso sobre esse ou essa – genêro hoje em dia é foda – que se desencantou muito rápido de Foz do Iguaçu. Repito que não sou eu, talvez o Henrique, mas não eu.

1.                  Passagens do Dia -

O celular vai cantar três vezes antes de você acordar e, quando o fizer, vai quebrar o silêncio. Nada de novo vai acontecer. O lençol vai escorregar até os seus pés, para serem resgatados até o alto de sua cabeça, enquanto seus olhos, de novo, fitam o relógio.
Hora de acordar, você se diz. Mas não levanta.  Ao invés, vai permitir que seus pensamentos afundem no sono, e que sua mente deite um pouco mais na dormência.  Nada de novo vai acontecer. E é lutando contra essa vontade louca de ficar ali sem fazer nada, que se levanta. Olha ao redor, e os outros dois estranhos ainda roncam – não se importe, você pensa. Desliza os pés por entre os chinelos e apenas com a luz que invade o pedaço da janela não ocultado pela cortina do quarto, se arrasta cambaleante e morto-vivo até o chuveiro.
- Hoje vou dormir mais cedo, você mente.
E quando piscam os olhos, o ambiente mudou, o tempo passou, e seus sentidos nem perceberam – é o efeito da rotina. Enquanto finge com seus amigos uma piada qualquer do café-da-manhã, ergue o cartão e a primeira passagem se faz: hora de entrar em uma viagem rápida, para um lugar rápido.
- Se estiver com sorte, vou ter um lugar para sentar, você pensa. E isso acontece.
Nos seus fones de ouvido há um silêncio tumultuoso, enquanto a voz de um ser distante vem até a sua consciência em forma de deja vu. “I believe i can see the future, cause I repeat the same routine”. E ele está certo, você se diz. E aos poucos você se recorda de quando tudo ali era novidade, e de como o novo te fazia querer acordar cada vez mais cedo para abraça-lo. Mas agora o novo se tornou um desejo gritante por novidade. E nem faz tanto tempo assim e...
E antes de poder pensar seus olhos piscam. O céu escureceu, nada de novo. Hora de voltar pra casa. Você ergue o cartão enquanto ri com seus amigos de uma piada feita durante essas horas e horas do dia que passou e ninguém percebeu. Se estiver com sorte, vai ter um lugar pra se sentar no ônibus, mas isso não acontece.
- Hoje eu vou dormir mais cedo, você mente.
Passagens de um dia qualquer.

E é, esse terminou assim, sem que ninguém percebe-se nada. O segundo é mais atento as coisas menos a si. Eu ri dele. Ri de novo agora. Divertido.
Vamos lá.


2.                  Não tem tradução mesmo não

Outro dia, andando por ai, me deparei com uma sacola cheia de cds quebrados. Peguei curioso e vi que eram daqueles antigos, que hoje em dia pouco se escuta, mas que tem seu valor maior que aquilo que muito se escuta. Tinha vários nomes ali: Noel Rosa, Nara Leão, Rita Lee e por ai vai. Seja dita a verdade, eram todos pirateados, com suas capas desbotadas e seus discos marcados a canetão azul e vermelho, vermelho e azul, com a única finalidade de distinguir um do outro e nada mais. De resto, seriam todos os mesmo pedaços de... sei não.  A seleção é boa mesmo, pensei eu, mas tá tudo ferrado, concluo eu.
E não fez diferença nenhuma porque cópia virtual daquilo é fácil de encontrar e pronto. Acabei por abandonar a sacolinha velha em uma lixeira mais velha ainda e é assim que a história deveria terminar. Deveria, mas não irá. É que Foz do Iguaçu tem o dom de me surpreender sem me surpreender e isso me assusta. Há pouco menos de um ano aqui já existe na gaveta material para um livro inteiro de contos, e inspiração para muita poesia – se bom ou ruim eu sei lá, mas estão aqui. A sacola de cds velhos com seus antiquados e arranhados artistas quase esquecidos, gritou lá do fundo da lixeira quando lhe dei as costas e me pus a caminhar, e nem percebi a principio - o que a fez gritar mais. Quando me virei para amarrar a boca da infeliz, tinha outro infeliz ali me encarando, com o plástico na mão:
- Hei seu moço, tem certeza que não vai querer isso aqui? – e eu nem perguntei o nome dele, agora que paro para pensar, mas estava meio rasgado, jeans sujos, pés descalços e o cabelo sambando na cara da sociedade. Se pudesse o chamaria de Israel, sei lá por que.
- Estão todos muitos riscados e eu nem tenho como reproduzir, então não quero mesmo – e eu nem me perguntei se o dono daquilo tudo havia deixado o tesouro inútil ali por ter pegado de rabo a mesma conclusão.
- É som do bom, eu vou levar então – falou Israel vasculhando aquele mundo plástico.
- É do bom mesmo, eu brinco que no meu enterro vai ser tocada Fita amarela do Noel – e era verdade mesmo, tenho amigos de testemunhas.
- Noel é do bom, meu pai tocava pra mim. Quando mãe morreu a gente tocou Meu barracão com a Bethânia cantando, mas eu acho que ela ia preferir Não tem tradução, seu moço. Gostava muito – e eu nem percebi na hora que Israel estava triste.
Dá saudade, seu moço, dá saudade.
- É verdade – disse com a cabeça baixa, olhando meu pé calçado. E nem dei tchau a Israel, que sumiu antes que pudesse fazer qualquer coisa.
Fitei a lixeira e vi que a sacola estava lá. Dei as costas e saí andando.
Perdi a bossa, e voltei ao barracão.


E agora eu fiquei confuso e tô me perguntando quem sou e quem é que tá teclando isso aqui. Desdobramos-nos e desdobramos a percepção do espaço o tempo todo. É que lá no 1 nada surpreende, e no segunda há algo fantástico agindo nos bastidores para me fazer pensar que não tenho nada de surpreendente, a cidade sim. É foda.

3.                  Conclusão
Hoje de manhã eu acordei e fui ouvir música e dormi. Quando acordei estava olhando um espelho e me assustei: tinha um mundo lá fora e, como em minhas palavras não encontrei sentido algum.

   Que merda de texto.

Golias ou Henrique Santana Corderio

segunda-feira, 16 de abril de 2012

Bunkhouse Theme


Enquanto caminhava sozinho, assim de lado, por ai, esses corredores abertos em um recorte da Itaipu, fiquei pensando em madeira e tudo mais. Não sei dizer, apenas me peguei pensando e de repente o Dylan tocou para mim, assim, de lado, como quem não quer nada. Mas não sei dizer mesmo qual o porquê dessas coisas.

- O que vai querer?
- Um Del Valle de maracujá.

Depois eu estava sentado no quiosque, cercado por pouca gente que não se nota e então não existe. Ficar triste por muito tempo é uma qualidade humana que ninguém compreende. E generalizo mesmo porque não gosto de generalizar. Isso me deixa triste. Mas não sei dizer mesmo qual o sentido nessas coisas.
O vento soprou hoje cedo no meu rosto, mas não sorri.
Eu não gosto de sorrir.
Tudo porque as vezes eu acho que me encaixo, no resto do tempo não.
E de vez em quando sonho com aquela crônica que não sei da minha cabeça e não tenho coragem de pôr em papel ou no virtual. Dá medo o conhecer-se. Um daqueles momentos bem peculiares em que se tem consciência do eu falando de si.
O vento soprou agora de novo.
Ouvia Bunkhouse theme.

Queria destruir todo e qualquer espelho no mundo. Reflexo é pior que o vento no meu rosto.


quinta-feira, 5 de abril de 2012

As histórias são história e sól.

e eu me perdi
na lembrança do teu abraço
assim sem rumo e sem vírgula
semme ligar muito para osespaços

se me faço sol,
tu é a lua
e a relação é a caótica
com minha mão aberta estendida
- fechada e longe a tua -

o mundo é nossa orla
eu ilumino o dia
tu é minha aurora
- lua, a água fria
minha proteção
sol, fogo quente
tua expansão

de paganismo a paganismo, nem sou o alfa
sem fé e sem fé, tu é omêga

quê que é que eu faço com o calor, eu Sol
se a lua
ai, o lua
oh Lua
pouco a pouco tu vai-se em outra noite
e me abandona...

terça-feira, 3 de abril de 2012

A Unila não existe, seu moço. E agora?


E a chuva cai sobre a uniamérica, sobre Foz do Iguaçu, mas não sobre mim, enquanto me atraso para aula e desisto dela. Sentei aqui nesse banco, abri meus textos e comecei a ler. Nostalgia demais em um código tão simples - a escrita. Maria Bethânia cantando nos meus ouvidos enquanto espirro (atchim! Atchim! ATCHIM!) em desespero.
Sinto saudade de casa e escrevo em negrito, porque assim o texto fica mais carregado e me esvazia. Lembro do quarto e da sala, do cachorro correndo atrás de mim no quintal, das brigas e dos risos e concluo que o espaço é importante para uma família: (ATCHAMM!) sem o quarto não teria vídeo-game com irmãos, sem a sala não teria conversa com amigos, sem quintal não teria o cachorro correndo, sem tudo junto não teria onde conversar com pai e mãe e irmãos e irmã e todo resto.





E volto à chuva de Foz do Iguaçu, me torno pierrot e ela meu choro. Eu já disse antes quevoltei para o barracão, mas agora nem isso. Olho em volta: o espaço em volta é um imenso vazio com pessoas indo e vindo e voltando. Alguns param e me olham por um segundo antes de concluir a falta de importância nisso e se vai. Terceira semana nesse lugar e nem sei mais o que se sente. Mas o que não sinto são saudades de uma casa nessa cidade.
É que unileiros “tem” dinheiro mas são sem-teto, e em uma epifania pífia do universo uma voz muda lambe minha orelha e balbucia que a gente não existe; que não sou nem um crachá para mostrar, porque nem isso tem mais significância. Nos tornamos (atchim!) capivaras sem rosto, andando para lá e para cá sem lugar para ficar.
Nem corpo há, e a alma não tem rosto. O que é que somos, Rosset? Um real ou um duplo? Eu sei lá... Por isso escrevo em negrito. Lembro de ontem a noite e daquele desabafo virtual e choro – pois agora sou a chuva e ela meu choro; lembro das palavras e dos poemas e choro – porque eles são minha alma, que é a chuva que agora começa a morrer; lembro de casa e choro – porque a chuva que sou eu começa a cessar; ouço Maria e choro, porque me lembro da Unila que não existe e me pergunto como posso lembrar e sentir falta de algo que nunca existiu.
Choro em negrito. Negrito deixa tudo mais forte. Tempestade e luto. Só luto em um texto não-revisado e mal escrito.
E ninguém apita.


Tiiiiiiiii

- Diz que me ama, diz assim,
Por favor,
diz pra mim

e ele saiu por ai tentando
encontrar uma forma pra sua loucura
uma mentira pra justificar sua ternura
e todo o resto

porque estava louco
louco dessa coisa de amor
e não sabia o que fazer

e então cantou ao vento
chorou para a lua
e queimou no sol
tudo isso que a angustia atraía

sobrou apenas a luz
essa chama louca de amor
e nada mais

mas ele morreu
bem cedo
aos vinte anos

por não saber como lidar
com essa coisa
essa coisa louca
de amar