terça-feira, 24 de abril de 2012

Ave verum corpus; salve o verdadeiro corpo.


- E o que você queria?
- Eu queria ser mais fraco, disse ele antes de virar as costas e sair caminhando.
Não havia mais nenhum ressentimento em seu olhar, a confissão fora sincera. Estava lutando há muito contra algo que não podia sequer entender e a simples ideia de combate exigia uma força de naturezas tão desconhecidas quanto a sombra que enfrentava. Ainda agora, quando penso no primeiro contato que tive com aquilo, estranho e desconhecido, pois por mais que tentasse do seu eu nada captei, lembro apenas da chuva e dos raios e do vento e do sangue em suas mãos. Sangue este que só eu vi e a coisa talvez jamais tivesse tocado.
Foi em uma noite de outono, como esta, em que o frio começa a se mostrar e o céu da cidade apresenta tumores de nuvens carregadas, que logo se espalharão por toda a imensidão infinita, transformando a alegria azul em melancolia cinza. Cinza onde me desdobro e me encontro e é o fim.
Pensava nisso quando o céu sobre minha cabeça se fechava para o seu próprio mundo e de longe me olhava. Caminhei em passos lentos, algo havia acontecido, mas escapara à minha memória – a mente me bloqueava e nos protegia -, mas esse algo era necessário saber. O vento cortou meu rosto quando, de súbito, um cachorro latiu do outro lado me encarando. Eu nada fiz. Eu nada queria. Saí andando e ignorei o sinistro negro de olhos vermelhos que sorriu a me ver.
Quarenta e dois passos depois, o corpo sucumbiu e caí de joelhos. As mãos percorriam minha cabeça e puxavam cada misero fio de cabelo por motivos que não compreendia. Sabia apenas que me odiava, e foi me odiando que fitei o céu negro, mas cinza, que me fitou de volta e chorou comigo; e como se cada gota de chuva ganhasse vida, minhas lágrimas caiam mortas pelo rosto. Abri a boca e bebi daquilo tudo enquanto meu silêncio clamava por misericórdia. Ave verum corpus. Mas nem a fé me respondeu.
O vento de antes gritou mais forte, e minha pele foi dilacerada mais uma vez, e duas, e três. Minhas unhas cediam à minha loucura e penetravam-me a carne, exigindo sangue, crucificando-me por sentir. Ave verum corpus, pois o espírito ali morria... E então meus olhos se abriram e de chuva a tempestade, tudo negro se tornou.
Revi teu rosto, luz do Sol, e meu desespero desenfreou-se. Porque não importava saber que não devia me depositar, uma vez que já o havia feito e de exorcismo nada sei. Lutei contra e clamei a favor, mas o sentimento sempre pareceu vil. E com o passar dos dias, e com passar dos meses, e com a extensão das horas e minutos, te vi indo para longe... como se nada mais importasse.
Ave verum corpus, porque a ti não posso tocar.
Ave verum corpus, porque nem amor e nem ódio poderemos compartir.
Ave verum corpus, porque não e porque sim.
E enquanto rolava ao chão, o sinistro de antes se achegou e lambeu meu rosto vira-lata. Seus olhos vermelhos choraram sangue sobre mim e gritei, ME MORDE!, mas ninguém me ouviu, nem ele que estava ali, me lambendo. As unhas se acalmavam e a pele gemia; a água refletida em mim, e caída dos céus, adormecia. De longe vi a figura do outro se aproximar, cambaleante e sem sentindo, como um bêbado enamorado pela madrugada fria. Beijou minhas mãos e me assustei com o sangue que sumia delas para irem às suas, mas nada importou... Ele era um espelho, um fantasma. O outro era eu. Com suas mãos banhadas em carmesim e cheirando a carne pecaminosa.
Eu sorri em desespero, e então só ri.
- O que aconteceu aconteceu e é isso.
- Não era pra ser assim...
- Palavras erradas, e o inferno se criou.
- Preciso de mais força, não vou abrir mão do Sol.
- Você é trevas, a luz do outro te destrói e abomina.
- Então eu prefiro morrer.
- Não a mim.
- E o que você queria?
- Eu queria ser mais fraco, disse ele antes de virar as costas e atravessar o silêncio. O cachorro sinistro e seu olhar vermelho sumiram na neblina que se formava, escondendo minha visão. Olhei minhas mãos e elas estavam limpas, a culpa do sangue parecia ter ido embora e voltei a chorar.
E os dias passaram sem graça... até o fim.


Golias, em Henrique Santana Cordeiro



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