sexta-feira, 20 de abril de 2012

Pensamentos soltos sobre Foz do Iguaçu: eu não surpreendo nem o espaço me assusta.


Cotidiano clichê em dois atos: o de quem não percebe e o de quem percebe demais. Eu ouvi essas duas histórias por ai, mas nem devem ser de todo certeza. É que a mente às vezes me engana e crio vozes que se misturam como água e fogo, então é vapor. E vapor não se pega, mas queima. E eu não sei o que isso quer dizer. O primeiro menino pode ser menina, e o seguinte é menino mesmo. Todo menino fica nu no espelho de vez em quando. Não vou dizer que sou eu, porque não sou. Mas eu poderia ter me desdobrado nesses dois, então deixa pra lá. Você tá achando essa introdução um saco, mas isso aqui nem é introdução: eu só tô procurando uma forma de ligar essas histórias que nasceram juntas e insistem em dizer que não são gêmeas só porque vieram ao mundo em dias diferentes. É tudo ilusão, me disse Clèment Rosset, mas a verdade é que esses personagens são como o pobre Jacobina, do Espelho do Machado de Assis, mas que não encontram sua segunda alma. É foda, mas é isso. E não me encha saco dizendo que cito autores para me justificar porque todo mundo um dia vai fazer isso. É foda.
Chega de enrolação, vamos ao primeiro caso sobre esse ou essa – genêro hoje em dia é foda – que se desencantou muito rápido de Foz do Iguaçu. Repito que não sou eu, talvez o Henrique, mas não eu.

1.                  Passagens do Dia -

O celular vai cantar três vezes antes de você acordar e, quando o fizer, vai quebrar o silêncio. Nada de novo vai acontecer. O lençol vai escorregar até os seus pés, para serem resgatados até o alto de sua cabeça, enquanto seus olhos, de novo, fitam o relógio.
Hora de acordar, você se diz. Mas não levanta.  Ao invés, vai permitir que seus pensamentos afundem no sono, e que sua mente deite um pouco mais na dormência.  Nada de novo vai acontecer. E é lutando contra essa vontade louca de ficar ali sem fazer nada, que se levanta. Olha ao redor, e os outros dois estranhos ainda roncam – não se importe, você pensa. Desliza os pés por entre os chinelos e apenas com a luz que invade o pedaço da janela não ocultado pela cortina do quarto, se arrasta cambaleante e morto-vivo até o chuveiro.
- Hoje vou dormir mais cedo, você mente.
E quando piscam os olhos, o ambiente mudou, o tempo passou, e seus sentidos nem perceberam – é o efeito da rotina. Enquanto finge com seus amigos uma piada qualquer do café-da-manhã, ergue o cartão e a primeira passagem se faz: hora de entrar em uma viagem rápida, para um lugar rápido.
- Se estiver com sorte, vou ter um lugar para sentar, você pensa. E isso acontece.
Nos seus fones de ouvido há um silêncio tumultuoso, enquanto a voz de um ser distante vem até a sua consciência em forma de deja vu. “I believe i can see the future, cause I repeat the same routine”. E ele está certo, você se diz. E aos poucos você se recorda de quando tudo ali era novidade, e de como o novo te fazia querer acordar cada vez mais cedo para abraça-lo. Mas agora o novo se tornou um desejo gritante por novidade. E nem faz tanto tempo assim e...
E antes de poder pensar seus olhos piscam. O céu escureceu, nada de novo. Hora de voltar pra casa. Você ergue o cartão enquanto ri com seus amigos de uma piada feita durante essas horas e horas do dia que passou e ninguém percebeu. Se estiver com sorte, vai ter um lugar pra se sentar no ônibus, mas isso não acontece.
- Hoje eu vou dormir mais cedo, você mente.
Passagens de um dia qualquer.

E é, esse terminou assim, sem que ninguém percebe-se nada. O segundo é mais atento as coisas menos a si. Eu ri dele. Ri de novo agora. Divertido.
Vamos lá.


2.                  Não tem tradução mesmo não

Outro dia, andando por ai, me deparei com uma sacola cheia de cds quebrados. Peguei curioso e vi que eram daqueles antigos, que hoje em dia pouco se escuta, mas que tem seu valor maior que aquilo que muito se escuta. Tinha vários nomes ali: Noel Rosa, Nara Leão, Rita Lee e por ai vai. Seja dita a verdade, eram todos pirateados, com suas capas desbotadas e seus discos marcados a canetão azul e vermelho, vermelho e azul, com a única finalidade de distinguir um do outro e nada mais. De resto, seriam todos os mesmo pedaços de... sei não.  A seleção é boa mesmo, pensei eu, mas tá tudo ferrado, concluo eu.
E não fez diferença nenhuma porque cópia virtual daquilo é fácil de encontrar e pronto. Acabei por abandonar a sacolinha velha em uma lixeira mais velha ainda e é assim que a história deveria terminar. Deveria, mas não irá. É que Foz do Iguaçu tem o dom de me surpreender sem me surpreender e isso me assusta. Há pouco menos de um ano aqui já existe na gaveta material para um livro inteiro de contos, e inspiração para muita poesia – se bom ou ruim eu sei lá, mas estão aqui. A sacola de cds velhos com seus antiquados e arranhados artistas quase esquecidos, gritou lá do fundo da lixeira quando lhe dei as costas e me pus a caminhar, e nem percebi a principio - o que a fez gritar mais. Quando me virei para amarrar a boca da infeliz, tinha outro infeliz ali me encarando, com o plástico na mão:
- Hei seu moço, tem certeza que não vai querer isso aqui? – e eu nem perguntei o nome dele, agora que paro para pensar, mas estava meio rasgado, jeans sujos, pés descalços e o cabelo sambando na cara da sociedade. Se pudesse o chamaria de Israel, sei lá por que.
- Estão todos muitos riscados e eu nem tenho como reproduzir, então não quero mesmo – e eu nem me perguntei se o dono daquilo tudo havia deixado o tesouro inútil ali por ter pegado de rabo a mesma conclusão.
- É som do bom, eu vou levar então – falou Israel vasculhando aquele mundo plástico.
- É do bom mesmo, eu brinco que no meu enterro vai ser tocada Fita amarela do Noel – e era verdade mesmo, tenho amigos de testemunhas.
- Noel é do bom, meu pai tocava pra mim. Quando mãe morreu a gente tocou Meu barracão com a Bethânia cantando, mas eu acho que ela ia preferir Não tem tradução, seu moço. Gostava muito – e eu nem percebi na hora que Israel estava triste.
Dá saudade, seu moço, dá saudade.
- É verdade – disse com a cabeça baixa, olhando meu pé calçado. E nem dei tchau a Israel, que sumiu antes que pudesse fazer qualquer coisa.
Fitei a lixeira e vi que a sacola estava lá. Dei as costas e saí andando.
Perdi a bossa, e voltei ao barracão.


E agora eu fiquei confuso e tô me perguntando quem sou e quem é que tá teclando isso aqui. Desdobramos-nos e desdobramos a percepção do espaço o tempo todo. É que lá no 1 nada surpreende, e no segunda há algo fantástico agindo nos bastidores para me fazer pensar que não tenho nada de surpreendente, a cidade sim. É foda.

3.                  Conclusão
Hoje de manhã eu acordei e fui ouvir música e dormi. Quando acordei estava olhando um espelho e me assustei: tinha um mundo lá fora e, como em minhas palavras não encontrei sentido algum.

   Que merda de texto.

Golias ou Henrique Santana Corderio

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