quinta-feira, 17 de maio de 2012

A merda

houve um tempo
em que o cigarro não gritava
meu café me abraçava
e o pôr-do-sol satisfazia

foram aqueles dias
de alma não enamorada
de escolhas velhas
e mal passadas
que se podia evitar

os momentos incertos
de andar na rua sem chinelo
e sorrir sem saber o porquê

de ficar de vez em quando
de não beijar todo dia
a sensação de abandono
e ter colo de mãe

agora tudo ficou difuso
minha vontade nem sei mais
é só ao outro o oportuno

e desdobro o pensamento
castigo o meu estar e o incenso
dos dias de pais
de onde fugi

o fantasma não canta mais
golias não canta mais
ninguém canta mais a mim

mas eu canto por todo mundo
acendo cigarro
encontro a vela do mundo
e o todo
esse mundo todo se triplica

e fico na janela com o cigarro gritando
o café faltando
e o pôr-do-sol atrás das minhas
costas.

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